Casarão dos azulejos (Andradas, 891/892)

Fachada do 891/895 (Foto: Letícia Zat)

Fachada do 891/895 (Foto: Letícia Zat)

O espaço é exíguo. São dois andares, três janelas, uma porta e três portões pequenos que revelam a função comercial do prédio. Ou do que sobrou dele. Só a fachada permanece mais ou menos intacta, revelando a beleza e o valor do patrimônio abandonado em plena Rua dos Andradas, a famosa Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre.

O casarão dos números 891/895 guarda uma história misteriosa, cheia de enigmas. Não descobrimos quando foi construído e com que intuito, mas testemunhas que viveram na casa revelam que o endereço abrigou diferentes (e surpreendentes) funções. O engraxate Claudio Roberto Nunes Bandeira, 65 anos, atua na Praça da Alfândega e lembra bem dos tempos em que pintava sapatos na casa azulejada da Andradas. Segundo ele, o prédio pertencia ao obstetra e professor da UFRGS, Aldo Freitas, e sua esposa, Maria Monteiro de Freitas. O casal teria morado na casa de 20 cômodos até se mudarem para uma mansão no bairro Menino Deus. Claudio, afilhado do casal Freitas, foi o último a morar no 891/895. Ele permaneceu ali até 2006, quando a Defesa Civil interditou o prédio, já em ruínas.

Antes disso, no entanto, o endereço conheceu o apogeu de uma Porto Alegre que já não existe mais. Abrigou um restaurante, uma casa de penhores, uma loja de armarinhos, uma pensão, um fliperama (já no período de decadência) e uma inacreditável fábrica de bolsas, a Duquesa.

Quem conta esta história é o herdeiro da empresa familiar, Nelso Pereira. De acordo com seu relato, a Duquesa nasceu como fábrica e ateliê de reparo de bolsas e artigos em couro. Em 1974, o empreendimento se instalou no segundo piso da casa dos azulejos. Ali, foram quase 30 anos de história, até 2001, quando a agora loja (a fábrica não resistiu à concorrência dos produtos chineses e passou a revendê-los) mudou-se para dois endereços, na Praça Dom Feliciano, e na mesma Rua da Praia, alguns números mais adiante.

Dos tempos da Duquesa, o prédio em ruínas guarda apenas parte do letreiro, pintado à mão (e quase apagado) sobre a porta que levava à escadaria de acesso ao segundo piso. Nelso Pereira diz que o edifício foi se deteriorando com o tempo, até ser embargado pelas autoridades municipais. Fechada, a casa passou a sofrer constante ação de vândalos e pegou fogo pelo menos três vezes nos últimos dez anos. Vendida por Paulo Monteiro de Freitas (filho do casal Freitas) para o funcionário público Ciro Comiran, a casa integra o inventário de bens patrimoniais de Porto Alegre e é uma das inscritas no programa Monumenta – que visa restaurar prédios de valor histórico.

Seus azulejos portugueses e o capricho das linhas arquitetônicas – simples, mas surpreendentes – fazem de sua fachada imponente alvo da admiração de quem passa por uma das principais ruas de Porto Alegre. Como mostram as fotos a seguir, uma enorme rachadura parece estar comprometendo a estrutura da fachada, a única parte mais ou menos intacta do edifício (apesar dos azulejos, a maioria deles destruída pela ação do tempo). Por trás do que se vê, restaram escombros e muito lixo: no interior do prédio, já é quase impossível vislumbrar que divisões existiam e quais as características da casa por dentro.

Não sabemos por quanto tempo este patrimônio esperará pelo socorro do Monumenta e das autoridades responsáveis, mas esperamos que medidas sejam tomadas antes que esta importante peça arquitetônica encravada no Centro de Porto Alegre desapareça sem deixar vestígios.

Pedimos a colaboração daqueles que tiverem mais informações a respeito do prédio. O Porto Alegre Abandonada seguirá contando esta história e acompanhando seus desdobramentos. Contate-nos!

* Esta postagem só foi possível graças à colaboração de Nelso Pereira (Lojas Duquesa), Cláudio Roberto Nunes Bandeira, Antonio (Edifício Brigadeiro Sampaio) e Benhur.

Veja mais fotos da casa dos azulejos, Andradas 891/895 (clique na miniatura para ampliar):

Conheça a região através do mapa:

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7 Respostas para “Casarão dos azulejos (Andradas, 891/892)

  1. Muito legal a iniciativa, Chico. Morei quase toda a minha vida na Andradas e lembro de ver essa casa ainda sem interdição. Lembro, principalmente, da época da Duquesa. Não tenho informações precisas, mas tenho memória. Quando lembrar de algo, comento contigo certo 🙂

  2. olá Pessoal

    * esta casa foi “O REDUTO” por muitos anos da primeira e única CASA DE PENHOR do portinho, com o nome AO BELCHIOR, onde podia-se “EMPENHAR OBJETOS” variados, era verdadeiro BAZAAR, tinha de tudo, des de instrumentos musicais, fotográficos, facas, roupas, calçados, aparelhos elétricos, moedas,….seu proprietário não NEGOCIAVA OU REALIZAVA EMPENHOS DE ARMAS DE FOGO, de qualquer espécie, era muito Consciente,
    * quando trabalhava na LOJA BIER ULMANN (ao lado do edifício do IPASE) nas horas de folga eu sempre PASSAVA POR LÁ PARA CONVERSAR COM O PROPRIETÁRIO, por curiosidade para ver as novidades na loja, após algum tempo me tornei conhecido deste Senhor, após esta data (1965,…71) fui trabalhar no estado de são paulo e perdi muitos contatos,…MENOS AS BELAS LEMBRANÇAS DE MINHA CIDADE, SEUS BELOS PRÉDIOS QUE FORAM DEMOLIDOS SEM QUALQUER CRITÉRIO, (EX. estação Ildefonso Pinto) DOS CONHECIDOS, AMIGOS,…É UMA LÁSTIMA ESTA SIMPLES É BELA CASA ESTAR NESTE ESTADO, SEM UMA SOLUÇÃO APARENTE NEM INTERESSE DO GOVERNO MUNICIPAL PARA PRESERVAR O NOSSO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E NOSSA IDENTIDADE.

    Eduíno de Mattos
    Conselheiro do Plano Diretor de porto Alegre.

  3. É lamentável que tenham deixado chegar a esse estado de abandono…vivi minha infância e adolescência e juventude…trabalhei anos com meu pai nesta casa, que trás boas e muitas lembranças da minha vida. Telmo Pereira- Loja Duquesa – Andrade Neves

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